terça-feira, 4 de junho de 2024

Um (surreal) conto da greve

             Todo mundo tomou os cartazes, as faixas e as bandeiras e se pôs em marcha. Mas nem todos se aperceberam que, ali, naquela marcha grevista, na qual muitos participavam pela primeira vez, eram acompanhados por séculos de história de muita luta e resistência.

Ao som da batucada, levantavam-se indígenas e quilombolas, velejando, em pleno ar, levado pelo vento, a afoita jangada do Dragão do Mar. Ali, acompanhando o carro de som, ia dona Bárbara de Alencar, impávida, ainda com o olhar da sertaneja valorosa que chegou a Fortaleza, a pé, vinda do Crato, escoltada pelos seus captores por lutar por liberdade. Ao cruzar a 13 de maio, outros camaradas se juntam a marcha os espíritos dos estudantes cearenses que lutaram contra a ditadura... Também segue Rosa da Fonseca, a incansável Rosa de todas as lutas cearenses.

Seguimos pela avenida da Universidade. De um dos barzinhos da Avenida, dois alemães saem afogueados: Marx e Engels, que saúdam a marcha, dos que nada tem a perder a não ser as cadeias. A caminhada segue engrossando mais e mais, com aquelas e aqueles que, a vida toda, se colocaram contra os poderosos. As inocentes crianças massacradas por Accyoli, os penitentes de Canudos e do Caldeirão, que ousaram trazer para terra o paraíso que os poderosos lhes obrigaram a desfrutar apenas após a morte.


Seguimos, as falas no carro de som falam de greve, de seguir na luta, de defender os direitos. Agora a massa, aposentados, estudantes, trabalhadoras, servidores, todos seguindo unidos, e chamando a todos para a luta. E as palavras de ordem saiam de boca em boca, das lutadoras e lutadores desse plano e de outros. Na esquina da Faculdade de Direito, a marcha saúda o obelisco, símbolo da vitória sobre o nazifascismo e a lembramça de que a extrema-direita não passará!

A ruas do Centro da cidade parecem saudar a marcha, afinal, essa Fortaleza desposada do sol é a Fortaleza rebelde e moleca, que derrubou oligarquias e teimou em eleger a primeira prefeita de esquerda em uma capital como se numa desforra da ditadura e do machismo que macula nossa terra. E falando dessa prefeita, Maria, ela segue na marcha, saudada por todos e recebendo o carinho de muitos. Com uma vivacidade de primavera em suas atitudes e falas, que encanta e inspira quem a escuta e vê. Os novos lutadores aprendendo com os experientes, fazendo da greve um momento de aprendizado, lúdico, um campo aberto a diversas oportunidades.

Chegamos à Praça do Ferreira e o bode Iô-iô nos saúda com um berro, o mais ilustre vereador, da irreverente Fortaleza, se junta a nós, em meio às cabriolagens. Somo muitos. Seremos mais. A Marcha chega ao fim, mas a greve continua. Até a vitória. Sempre!

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