Todo mundo tomou os cartazes, as faixas e as bandeiras e se pôs em marcha. Mas nem todos se aperceberam que, ali, naquela marcha grevista, na qual muitos participavam pela primeira vez, eram acompanhados por séculos de história de muita luta e resistência.
Ao som da batucada, levantavam-se indígenas e quilombolas, velejando, em pleno ar, levado pelo vento, a afoita jangada do Dragão do Mar. Ali, acompanhando o carro de som, ia dona Bárbara de Alencar, impávida, ainda com o olhar da sertaneja valorosa que chegou a Fortaleza, a pé, vinda do Crato, escoltada pelos seus captores por lutar por liberdade. Ao cruzar a 13 de maio, outros camaradas se juntam a marcha os espíritos dos estudantes cearenses que lutaram contra a ditadura... Também segue Rosa da Fonseca, a incansável Rosa de todas as lutas cearenses.Seguimos
pela avenida da Universidade. De um dos barzinhos da Avenida, dois alemães saem
afogueados: Marx e Engels, que saúdam a marcha, dos que nada tem a perder a não
ser as cadeias. A caminhada segue engrossando mais e mais, com aquelas e
aqueles que, a vida toda, se colocaram contra os poderosos. As inocentes
crianças massacradas por Accyoli, os penitentes de Canudos e do Caldeirão, que
ousaram trazer para terra o paraíso que os poderosos lhes obrigaram a desfrutar
apenas após a morte.
Seguimos,
as falas no carro de som falam de greve, de seguir na luta, de defender os
direitos. Agora a massa, aposentados, estudantes, trabalhadoras, servidores,
todos seguindo unidos, e chamando a todos para a luta. E as palavras de ordem
saiam de boca em boca, das lutadoras e lutadores desse plano e de outros. Na
esquina da Faculdade de Direito, a marcha saúda o obelisco, símbolo da vitória
sobre o nazifascismo e a lembramça de que a extrema-direita não passará!
A ruas
do Centro da cidade parecem saudar a marcha, afinal, essa Fortaleza desposada
do sol é a Fortaleza rebelde e moleca, que derrubou oligarquias e teimou em
eleger a primeira prefeita de esquerda em uma capital como se numa desforra da
ditadura e do machismo que macula nossa terra. E falando dessa prefeita, Maria, ela segue na marcha, saudada por todos e recebendo o carinho de muitos. Com uma
vivacidade de primavera em suas atitudes e falas, que encanta e inspira quem a
escuta e vê. Os novos lutadores aprendendo com os experientes, fazendo da greve
um momento de aprendizado, lúdico, um campo aberto a diversas oportunidades.
Chegamos
à Praça do Ferreira e o bode Iô-iô nos saúda com um berro, o mais ilustre
vereador, da irreverente Fortaleza, se junta a nós, em meio às cabriolagens.
Somo muitos. Seremos mais. A Marcha chega ao fim, mas a greve continua. Até a
vitória. Sempre!

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