Entre Jorge e
Francisco
Do meu caderno de anotações, em 23/04/2025
Estou escrevendo essas linhas, abrindo um tempo entre as leituras e a escrita da tese. Olho para o calendário permanente de madeira, presente de um amigo que deve ler essa crônica e ficar animado em saber que o dito calendário é ferramenta que me permite não perder o correr dos dias.
Mas como ia dizendo, olhei para o
calendário e vi que era vinte e três de abril. Alguma coisa naquela data me
levou a dar um google. Pow! Dia de são Jorge. Exatos três dias depois da páscoa
de 2025. E do que mais me lembrei? De que não tinha escrito sobre o Papa
Francisco, falecido em vinte um de abril. Que antes de escolhido papa e ter
escolhido ser Francisco se chamava Jorge.
Lembro que estudava história na
UECE, quando Bento XVI, cansado da carga que deve ser calçar as sandálias do
pescador, renunciou ao pontificado. O primeiro a fazê-lo na época moderna. Ele
havia sido homem de confiança do papa anterior, João Paulo II, que decidiu,
mesmo visivelmente debilitado pela doença, manter-se no Trono de São Pedro até
o fim. Cada um com suas concepções. O fato é que a longa doença, a exposição
midiática (antes de João Paulo II, os papas simplesmente morriam, o polonês foi
o primeiro a mostrar-se doente), fizeram Bento entender, que, diferente do seu
antecessor, ele serviria melhor à sua Igreja, abrindo espaço para um papa mais
jovem, se bater contra os problemas de uma instituição milenar, que vive entre
a tradição e o conservadorismo e o desejo de parte de seus fiéis que se abra a
novos tempos.
Veio o conclave. E o argentino
Jorge, que sairia da sua Buenos Aires, com uma malinha para passar um tempo em
Roma e voltar, acabou sendo escolhido bispo de Roma. No dia em que foi
anunciado, estava voltando do trabalho, a caminho da aula, quando vi, num
barzinho, uma pequena multidão aglomerada, assistindo à transmissão “urbe et
orbe”, desde Roma.
Saí extasiado. Um sul-americano
era o novo papa. E, diferente do que a imprensa especialista brasileira
especulava, era um argentino. Depois fomos sabendo mais do papa novo. Ele era
jesuíta. Quando divulgaram que seu nome seria Francisco, pensei, logo, em São
Francisco Xavier, um jesuíta do século XVI, evangelizador do Japão. Mas, era a
Francisco de Assis que Jorge resolvera tomar seu nome de papa.
Ora, como não ficar com um pé
atrás, com um novo papa jesuíta e ainda mais, vejam só, argentino. Mas,
Francisco, acabou sendo uma grata surpresa. Ele não foi um revolucionário. Não
derruiu um único dogma. Mas abriu uma janela que permitiu que uma brisa suave
arejasse com frescor a Igreja. Uso a metáfora da brisa, lembrando das minhas
próprias leituras bíblicas. Lá em Reis, quando Elias foge para não ser morto
por um rei de Israel. Levado ao deserto, ou a um monte, não lembro agora, ele
tem um encontro com Deus. O escritor bíblico diz que correram rios de fogo,
trovões, ventanias, mas Deus não estava no meio disso. De repente começou a
soprar uma brisa soava, um cicio quase inaudível. E ali Deus falou com Elias.
Foi essa brisa que Francisco permitiu que soprasse.
Acolheu os oprimidos, criticou o
capitalismo, lutou pelos refugiados e migrantes. Condenou o preconceito e os
genocídios, fazendo com que seu pontificado ficasse marcado no mundo inteiro.
Deus e ele sabem a que custo. Fiquei um tempo sem acompanhar a trajetória dele.
Ouvia a manada de bolsonaristas, fascistas e toda a fauna de direita chama-lo
de comunista, espumando de ódio pelo motivo de quem um líder religioso não
agisse como um vendilhão do templo, ou como o levita e o fariseu, que seguiram
seu caminho, sem ajudar o necessitado. Quando eu revi Francisco, pela
televisão, vi um homem desgastado, doente, mas firme em suas resoluções.
No domingo de páscoa, fez questão
de condenar o genocídio palestino e de andar entre os fieis na praça de São
Pedro. E no dia seguinte, a notícia de que o papa Francisco, falecera. Me
marcou, eu que estou longe do meu Ceará, o fato que, desde sua eleição, nunca
voltara a Argentina.
Agora, o mundo espera a eleição
de um novo papa. Mas para a maioria, o sentimento que se intuiu é que
presenciamos todos o pontificado de um dos maiores papas. Não pelo que
realizou, mas por ter estado sempre ao lado dos oprimidos, dos pobres, dos
perdidos do mundo. Tal como Jesus, de quem ele foi vigário.
E sua ultima lição: a humildade
de um caixão simples e um enterro fora da basílica de São Pedro, ele mostrou
seguir os passos de Cristo, que mesmo ressuscitado, glorificado, ao aparecer a
Paulo, se apresentou a ele simplesmente como Jesus de Nazaré, o camponês pobre
da Galileia, que percorreu a Palestina com pobre, pecadores e excluídos,
pregando um mundo onde todos tivessem uma vida abundante.


