quinta-feira, 3 de julho de 2025

Escrevi e não publiquei...

 

Entre Jorge e Francisco

Do meu caderno de anotações, em 23/04/2025


 Estou escrevendo essas linhas, abrindo um tempo entre as leituras e a escrita da tese. Olho para o calendário permanente de madeira, presente de um amigo que deve ler essa crônica e ficar animado em saber que o dito calendário é ferramenta que me permite não perder o correr dos dias. 

Mas como ia dizendo, olhei para o calendário e vi que era vinte e três de abril. Alguma coisa naquela data me levou a dar um google. Pow! Dia de são Jorge. Exatos três dias depois da páscoa de 2025. E do que mais me lembrei? De que não tinha escrito sobre o Papa Francisco, falecido em vinte um de abril. Que antes de escolhido papa e ter escolhido ser Francisco se chamava Jorge.

Lembro que estudava história na UECE, quando Bento XVI, cansado da carga que deve ser calçar as sandálias do pescador, renunciou ao pontificado. O primeiro a fazê-lo na época moderna. Ele havia sido homem de confiança do papa anterior, João Paulo II, que decidiu, mesmo visivelmente debilitado pela doença, manter-se no Trono de São Pedro até o fim. Cada um com suas concepções. O fato é que a longa doença, a exposição midiática (antes de João Paulo II, os papas simplesmente morriam, o polonês foi o primeiro a mostrar-se doente), fizeram Bento entender, que, diferente do seu antecessor, ele serviria melhor à sua Igreja, abrindo espaço para um papa mais jovem, se bater contra os problemas de uma instituição milenar, que vive entre a tradição e o conservadorismo e o desejo de parte de seus fiéis que se abra a novos tempos.

Veio o conclave. E o argentino Jorge, que sairia da sua Buenos Aires, com uma malinha para passar um tempo em Roma e voltar, acabou sendo escolhido bispo de Roma. No dia em que foi anunciado, estava voltando do trabalho, a caminho da aula, quando vi, num barzinho, uma pequena multidão aglomerada, assistindo à transmissão “urbe et orbe”, desde Roma.

Saí extasiado. Um sul-americano era o novo papa. E, diferente do que a imprensa especialista brasileira especulava, era um argentino. Depois fomos sabendo mais do papa novo. Ele era jesuíta. Quando divulgaram que seu nome seria Francisco, pensei, logo, em São Francisco Xavier, um jesuíta do século XVI, evangelizador do Japão. Mas, era a Francisco de Assis que Jorge resolvera tomar seu nome de papa.

Ora, como não ficar com um pé atrás, com um novo papa jesuíta e ainda mais, vejam só, argentino. Mas, Francisco, acabou sendo uma grata surpresa. Ele não foi um revolucionário. Não derruiu um único dogma. Mas abriu uma janela que permitiu que uma brisa suave arejasse com frescor a Igreja. Uso a metáfora da brisa, lembrando das minhas próprias leituras bíblicas. Lá em Reis, quando Elias foge para não ser morto por um rei de Israel. Levado ao deserto, ou a um monte, não lembro agora, ele tem um encontro com Deus. O escritor bíblico diz que correram rios de fogo, trovões, ventanias, mas Deus não estava no meio disso. De repente começou a soprar uma brisa soava, um cicio quase inaudível. E ali Deus falou com Elias. Foi essa brisa que Francisco permitiu que soprasse.

Acolheu os oprimidos, criticou o capitalismo, lutou pelos refugiados e migrantes. Condenou o preconceito e os genocídios, fazendo com que seu pontificado ficasse marcado no mundo inteiro. Deus e ele sabem a que custo. Fiquei um tempo sem acompanhar a trajetória dele. Ouvia a manada de bolsonaristas, fascistas e toda a fauna de direita chama-lo de comunista, espumando de ódio pelo motivo de quem um líder religioso não agisse como um vendilhão do templo, ou como o levita e o fariseu, que seguiram seu caminho, sem ajudar o necessitado. Quando eu revi Francisco, pela televisão, vi um homem desgastado, doente, mas firme em suas resoluções.

No domingo de páscoa, fez questão de condenar o genocídio palestino e de andar entre os fieis na praça de São Pedro. E no dia seguinte, a notícia de que o papa Francisco, falecera. Me marcou, eu que estou longe do meu Ceará, o fato que, desde sua eleição, nunca voltara a Argentina.

Agora, o mundo espera a eleição de um novo papa. Mas para a maioria, o sentimento que se intuiu é que presenciamos todos o pontificado de um dos maiores papas. Não pelo que realizou, mas por ter estado sempre ao lado dos oprimidos, dos pobres, dos perdidos do mundo. Tal como Jesus, de quem ele foi vigário.

E sua ultima lição: a humildade de um caixão simples e um enterro fora da basílica de São Pedro, ele mostrou seguir os passos de Cristo, que mesmo ressuscitado, glorificado, ao aparecer a Paulo, se apresentou a ele simplesmente como Jesus de Nazaré, o camponês pobre da Galileia, que percorreu a Palestina com pobre, pecadores e excluídos, pregando um mundo onde todos tivessem uma vida abundante.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

A greve acabou, mas ainda temos muito pelo que lutar

 Hoje, os TAE da UFCA, UNILAB e UFC retornam as atividades. MAs senti que falatava algo para fechar o momento. Me perguntei:

"Como encerrar esta greve"? 

Pensei bastante e resolvi que deveria concluir com uma crônica. Em março, durante uma conversa de estudantes lá do Cariri e que poderia ser de qualquer federal brasileira, a greve dos TAE entrou em pauta. Um deles dizia que estava tudo bem, os técnicos entrarem em greve, porque eles não faziam nada mesmo e que ninguém seria afetado. Ledo engano. Nem bem a greve começou iniciou uma correira para que praticamente todas as atividades dos TAE fossem consideradas essenciais. Vimos de tudo. E os Comando Locais de Greve foram firmes.

Durante 110 dias uma categoria invisível se projetou com força e mostrou que sem o trabalho dos milhares de técnicas e técnicos administrativos em educação não há Educação Superior, muito menos universidade pública. Foi uma greve que, ao seu final coleciona adjetivos. Forte, pedagógica, didática, para ficar em alguns. Mas o que essa greve foi na completa acepção do termo foi POLÍTICA. Não queria apenas salários. Queria mais. Queria um novo modelo de trabalho para uma categoria que, tanto quanto docentes, atua no Ensino, na Pesquisa e na Extensão das universidades. Porque as atividades da Educação Superior não se limitam às salas de aula e laboratórios.

Para além de uma nova carreira, que reconhecesse as competências e os saberes criados pelos TAE, a greve falou com propriedade que é preciso democratizar o acesso e gestão universitária e seus fazeres. Os TAE, em sua diversidade, estão em todo o processo, da admissão de estudantes à sua colação de grau, na concessão de bolsas, na análise de cursos e em sua avaliação, junto com docentes e estudantes, mostrando que a universidade hoje é maior e mais forte, quando utiliza as expertises de toda a sua comunidade, estudantes, docentes e TAE. O futuro da universidade passa por reconhecer isso e sepultar a ditadura docente, se abrindo à paridade nos concelhos e eleições e abrindo possibilidade para que os profissionais altamente capacitados se tornem reitores, independente se docentes ou técnicas e técnicos. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas faremos isso juntos, camaradas.

E ainda, ao confrontar a narrativa de austeridade, exigindo valorização das trabalhadoras e trabalhadores da educação e recomposição do orçamento das universidades, a greve mostrou que o caminho das lutas é o único que pode impedir que o grande capital financeiro e os oportunistas do Centrão, lá no Congresso, fiquem com todo o orçamento. Nesse sentido a greve foi civilizatória, ao exigir que a Educação estivesse no centro da pauta. Que todos os direitos estivessem no centro da pauta.

Por isso ela recebeu os mais rematados discursos de ódio. Afinal, como servidoras e servidores da educação podem ter a audácia de contrariar os economistas dos jornalões e do próprio governo e exigir que o orçamento seja utilizado em prol dos trabalhadores e não dos compromissos da dívida?

A greve que começou como sendo uma greve de uma categoria desconhecida e para qual estava relegada a quase nada de reajuste chega ao fim, colocando os TAE no seu lugar ao sol. E mais, com uma careira renovada e que pode ser o ponto de partida para que cada camarada possa crescer e se desenvolver, realizando seus sonhos, cumprindo sua missão junto a universidade pública. Além de arrancar recursos que auxiliam na recomposição orçamentária das IFES e a construção de novos campi e ampliação dos existentes.

Mas ainda precisamos regulam,entar o Reconhecimento de Saberes e Competências e garabtir 30 hs para todos. Os GTs com o MEC, o MGI e a nossa Comissão Nacional de Carreira tem que acontecer e garantir a implemtaçao dessas e de outras ferramentas fundmanetais para que nossas universidades sejam ainda mais locais de qualidade de trabalho, de estudo e de vida!

Lutar é verbo. E sua conjugação não pode parar. Porque precisamos sempre mais. Mais educação, mais universidade, mais orçamento, mais sonhos, mais vida. Mais TAE.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Um (surreal) conto da greve

             Todo mundo tomou os cartazes, as faixas e as bandeiras e se pôs em marcha. Mas nem todos se aperceberam que, ali, naquela marcha grevista, na qual muitos participavam pela primeira vez, eram acompanhados por séculos de história de muita luta e resistência.

Ao som da batucada, levantavam-se indígenas e quilombolas, velejando, em pleno ar, levado pelo vento, a afoita jangada do Dragão do Mar. Ali, acompanhando o carro de som, ia dona Bárbara de Alencar, impávida, ainda com o olhar da sertaneja valorosa que chegou a Fortaleza, a pé, vinda do Crato, escoltada pelos seus captores por lutar por liberdade. Ao cruzar a 13 de maio, outros camaradas se juntam a marcha os espíritos dos estudantes cearenses que lutaram contra a ditadura... Também segue Rosa da Fonseca, a incansável Rosa de todas as lutas cearenses.

Seguimos pela avenida da Universidade. De um dos barzinhos da Avenida, dois alemães saem afogueados: Marx e Engels, que saúdam a marcha, dos que nada tem a perder a não ser as cadeias. A caminhada segue engrossando mais e mais, com aquelas e aqueles que, a vida toda, se colocaram contra os poderosos. As inocentes crianças massacradas por Accyoli, os penitentes de Canudos e do Caldeirão, que ousaram trazer para terra o paraíso que os poderosos lhes obrigaram a desfrutar apenas após a morte.


Seguimos, as falas no carro de som falam de greve, de seguir na luta, de defender os direitos. Agora a massa, aposentados, estudantes, trabalhadoras, servidores, todos seguindo unidos, e chamando a todos para a luta. E as palavras de ordem saiam de boca em boca, das lutadoras e lutadores desse plano e de outros. Na esquina da Faculdade de Direito, a marcha saúda o obelisco, símbolo da vitória sobre o nazifascismo e a lembramça de que a extrema-direita não passará!

A ruas do Centro da cidade parecem saudar a marcha, afinal, essa Fortaleza desposada do sol é a Fortaleza rebelde e moleca, que derrubou oligarquias e teimou em eleger a primeira prefeita de esquerda em uma capital como se numa desforra da ditadura e do machismo que macula nossa terra. E falando dessa prefeita, Maria, ela segue na marcha, saudada por todos e recebendo o carinho de muitos. Com uma vivacidade de primavera em suas atitudes e falas, que encanta e inspira quem a escuta e vê. Os novos lutadores aprendendo com os experientes, fazendo da greve um momento de aprendizado, lúdico, um campo aberto a diversas oportunidades.

Chegamos à Praça do Ferreira e o bode Iô-iô nos saúda com um berro, o mais ilustre vereador, da irreverente Fortaleza, se junta a nós, em meio às cabriolagens. Somo muitos. Seremos mais. A Marcha chega ao fim, mas a greve continua. Até a vitória. Sempre!

quinta-feira, 28 de março de 2024

Páscoa

A festa da Páscoa era a data mais importante do judaísmo. No século I, na Palestina ocupada pelos romanos, a celebração da libertação do Egito sob a liderança de Moisés, não tinha significado apenas religioso, mas, principalmente, político. Não à toa, o governador romano saía de Cesaréia e se estabelecia com toda sua guarda em Jerusalém. 
E a cada Páscoa, a tensão aumentava e não poucas revoltas tiveram como palco a festa pascal. 
Jesus e seus seguidores, como devem ter feito durante toda a vida, deixaram a Galiléia e foram a cidade sagrada, único local em que os judeus poderiam fazer sacrifícios ao seu Deus. 
O movimento de Jesus era pequeno. Alguns poucos discípulos. Algo em torno de trezentas, quatrocentas pessoas. A maior parte galileus pobres. João Batista, morto no começo do ministério de Jesus, liderava um movimento bem maior. Agora, Jesus chega a Jerusalém e, diferente das demais vezes, ele realiza pregações e intervenções públicas. 
Uma mensagem religiosa, sim, mas potencialmente explosiva. Uma pregação que retirava a autoridade dos escribas, sacerdotes e outros doutores da lei, que além de controlar o acesso ao sagrado, controlava as massas, deixando-as dóceis para o jugo romano. 
Em seus últimos momentos junto aos seguidores, partilhou o pão e o vinho, como mostra do que deveriam continuar a fazer.
Em apenas seis dias, Jesus foi preso, seus seguidores dispersos, foi julgado por autoridades judaicas e romanas, condenado e executado. 
Mas, no domingo de Páscoa, terceiro dia após sua crucificação como revolucionário, que buscava libertar a Judéia de Roma, mulheres, sim, simples mulheres, testemunhas que, àquela época, não tinham credibilidade, espalharam entre os seguidores, que Jesus ressuscitara. O resto é história. Ou religião. 
O fato é que um judeu simples do século I, mudou para sempre a face do mundo. 
Sou cristão. Acredito que Jesus ressuscitou. E que ele é Deus que se fez homem e, concordando com Dom Pedro Casaldaglia, Deus que se fez classe na oficina de José. 
A páscoa é a celebração de um Deus, que ousou não só viver entre nós, mas entregar a vida por todos nós, para ensinar a cada um dos que querem segui-lo, que é no servir que nos fazemos grandes. Que o amor é a mais poderosa arma que temos. Ele entregou a vida por todos nós. E, como ele pediu, precisamos ser seus imitadores. Amemos tanto quanto ele nos amou. 
Mudemos o mundo como ele mudou. Para que todas e todos sejam iguais. 
O meu Cristo é revolucionário sim! Lutou pela igualdade sim, andou com pecadores, prostitutas e miseráveis. Foi Deus, principalmente para os excluídos. 
Somos todos, querendo ou não, influenciados por esse galileu, que hoje foi sequestrado por fundamentalistas tão rudese hipócritas, como aqueles contra os quais Jesus pregou. Inventam um outro Jesus, amigo da ordem, dos ricos, estimulador do exacerbado individualismo neoliberal e que é o simples reflexo deles mesmos. 
Feliz Páscoa! Nunca esqueçamos que Jesus foi, é e será Deus conosco! 

segunda-feira, 18 de março de 2024

Um conto sobre agradecimento

Certa vez, um poderoso coronel ia atravessando o sertão. Seus criados lhe pediram para não sair, que as primeiras chuvas da temporada iam cair. Mas, sendo homem poderoso e valente se recusou a dar ouvidos a quem quer que fosse.
A chuva o pegou no meio do caminho. Logo estava cavalgando em meio a uma corrente forte. Quando menos esperava, ela veio: a enxurrada. Arrastando terra, galhos, enfim, tudo o que via pela frente. Quando foi atingido, a força da água o derrubou do cavalo. Foi sendo arrastado, submergindo e emergindo em desespero. Conseguiu agarrar-se a um tronco que flutuava e achou que estava a salvo. Sobre o tronco, também buscando salvar-se estavam uma raposa, um carcará e um tatu, que no sertão, o povo chama de peba.
A água veloz arrastava o tronco onde os quatro se mantinham firmes. Quando passavam pelo casebre de um pobre vaqueiro, o coronel gritou por ajuda. O pobre homem o ouviu e foi correndo pegar uma corda que usou para laçar o trono e o puxar para o seco. Depois tirou os quatro da chuva, os abrigou em casa e os secou. Logo caiu a noite. Ele cedeu a sua rede ao coronel, colocou esteiras de palha seca para que o tatu peba e a raposa se deitassem perto do fogo e colocou o carcará sobre uma forquilha, para que descansasse também. Passou a noite velando o sono do homem e dos animais.
O sol nasceu glorioso no dia seguinte. O sertanejo abriu a porta e os quatro puderam sair. Deixaram-se ser tocados pelo sol. O vaqueiro lhe trouxe um pouco de comida para o desjejum. E então resolveram partir. Primeiro o Carcará. Aproximou-se do salvador, agradeceu-lhe e abrindo as asas, antes de se lançar aos céus disse:
— Nada tenho comigo, mas quando precisar de auxílio, grite olhando para os lados do nascente: Valei-me, meu Carcará, senhor das aves. Eu virei até você, com todos os meus parentes.
Depois veio a raposa:
— Tal como o carcará, nada tenho comigo. Mas sou grata e lhe digo: quando precisar de auxílio, vire-se para o poente e grite: Valei-me amiga raposa, dama sagaz da caatinga! E eu virei te ajudar com todos os meus parentes.
Então foi a vez do pequeno Tatu-peba:
— Não vou mentir: nada tenho. Mas se precisar de ajuda, cave um buraco e grite dentro dele: óia, meu pebinha, cavador dos sertões. E saberei recompensá-lo.
Então os três animais e o vaqueiro voltaram-se para o coronel. Mas nenhum deles sabia que aquele homem, era um dos poderosos da terra. Afinal chegara, molhado, sujo e rasgado. E agora vestia as roupas secas do pobre sertanejo. O coronel achava que o homem não fizera
Mais que sua obrigação para com ele. Mas, diante da gratidão expressada pelos animais, resolveu também fazer uma oferta:
— Eu sou o coronel João de Deus. Tudo o que trazia, perdi na enxurrada. Mas me procure na Casa Grande da fazenda Algarobas. E lhe recompensarei por tudo.
O vaqueiro agradeceu por tudo e disse que era um homem simples e que vivia como mandava Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas que um dia, apenas se precisasse, procuraria aqueles que, desde aquele momento, eram seus amigos. Despediram-se e cada um deles se foi por seu caminho.
Aquele ano foi de fartura. As chuvas foram boas, em quantidade e bem distribuídas. Infelizmente, no ano seguinte, veio uma seca. E a terra ficou sem ver chuva por anos. No terceiro ano, o pobre vaqueiro, já tinha perdido as poucas cabeças de gado e agora as cacimbas todas secaram. Sem água, só restava juntar tudo o que ainda lhe restava e buscar recomeçar a vida em outro lugar.
Estava nessas considerações quando lembrou das promessas que lhe foram feitas fazia tanto tempo. Pensou no Carcará, mas achou que ainda não precisava da ajuda de uma ave. Também não achava ser possível ter a ajuda da raposa. Muito menos do pobre peba. Mas, o coronel podia lhe ajudar. Dar-lhe serviço. Lembrou o nome da fazenda e se pôs a caminho.
Caminhava e via a face feia da seca: as casas abandonadas, com os magros animais, também abandonados, olhando de soslaio, sem força sequer para levantar a cabeça. Aquilo era de doer o coração. Pela estrada, os corpos ressequidos de bois e vacas, que ficaram no caminho, quando da partida dos seus donos.
Os pequenos riachos secos pelos quais cruzava lhe enchiam o coração de tristeza. Em um deles, parou diante de uma cacimba. Apenas um buraco fundo, seco. Fez uma pequena oração pedindo misericórdia. No alto, urubus voavam em círculo, como a espera de que ele mesmo fosse ao chão, exangue.
Ao terceiro dia, avistou um campo ainda verde. Gado menos sofrido. Os vaqueiros lhe olhavam desconfiados. Viu, longe, a massa de água compacta de um açude de tamanho considerável. Ali não faltaria água tão cedo, pensou. Foi até a porteira e viu a Casa Grande, toda caiada de branco. Pediu para entrar. Tinha assunto com o coronel. Os homens foram chamar o patrão. O homem veio e logo que pôs os olhos no sertanejo reconheceu que ali estava o homem que o ajudara.
O coronel veio pensando “ele me ajudou na necessidade. Mas, o que ele tinha com isso? Poderia ter saído da enxurrada sem ajuda alguma. E além disso, ele fez por caridade. Agora queria paga? Era mais um aproveitador, como tantos que vinham bater em sua porta”. Aquilo o encheu de raiva. E antes mesmo de ouvir o pobre homem já foi dando ordem aos seus jagunços:
— Peguem este homem e lhe deem uma surra. Para que ele aprenda a não vir até aqui esmolar, como se eu tivesse alguma obrigação com ele. Depois da surra, o amarrem ali no pé de Juazeiro. E você, vá chamar delegado Farias, para lançar este na cadeia. Que deixar ele vivo é a melhor paga que eu dou a esta gentinha.
Assim fizeram os homens. Quase morto, o pobre sertanejo foi amarrado com uma corda no velho juazeiro. O delegado, respondeu, pedindo muitas desculpas, que só poderia vir no dia seguinte.
De madrugada, o sertanejo despertou. Ainda zonzo lembrou da raposa. E a chamou, bem do jeito que ela tinha lhe ensinado. Nada aconteceu. O pobre melancólico achou que a raposa, tal como o coronel lhe mentira.
Estava nesse pensamento quando ouviu um barulho vindo do lado oposto ao das construções. Era a raposa.
— Olá, meu amigo. Vejo que está mal. É isso não me alegra.
— Me ajude, raposinha!
A raposa, matreira, foi até as cordas e desatou os nós com facilidade.
— Consegue andar? Eu não tenho força para carregá-lo.
— Se me ajudar, eu consigo.
Ele foi andando com dificuldade apoiado na raposa. Então, um dos jagunços os viu. E chamou os outros. A raposa, nervosa, o soltou e tentou atrasar os homens. Sem conseguir se colocar de pé, o homem sentou no chão. E viu a raposa tentando impedir a jagunçada de os alcançar. Então invocou o carcará. A ave, com sua visão aguçada, viu o que estava acontecendo de longe. E foi ao auxílio do amigo, chamando todos as aves que estavam na redondeza.
Eram tantas aves, de todos os tipos, tamanhos e cores, voando em um só bando que taparam a luz da lua. E os jagunços, não podiam ver nada. Então, o bando de aves, agarrou a raposa e o sertanejo e o levaram aos céus. Voaram por muito tempo. O sol estava nascendo quando desceram o sertanejo e a raposa no alto de um morro. Bem Distante das terras do coronel.
No chão, o homem agradeceu pela ajuda e pôs-se a chorar. Em desespero por não ter esperança alguma de sobreviver em meio a seca, sem nada. Então a raposa, sempre esperta, lembrou a ele que ainda tinha um amigo a quem recorrer. Ele, então chamou o tatu. E aguardou. Demorou um pouco e logo viram a terra se elevando pertinho deles e logo se abrindo em um buraco, de onde saiu o tatu.
Ele saudou os presentes, reconhecendo-os e ouviu a história toda. Compadecido com o pobre sertanejo, ele pediu que o homem o aguardasse. E partiu. Retornou no fim do dia. E não estava sozinho. Trouxe consigo mais de 150 tatus. Cada um deles arrastava um saco. Os sacos estavam cheios de ouro e pedras preciosas.
— Amigo, escavamos por todo lado. Sempre encontramos dessas coisas. Para nós, de que valem? Mas os humanos se perdem por essas ninharias. Espero que isso ajude você em suas dificuldades!
— Obrigado, meus queridos amigos. Vocês me salvaram e me
Deram uma riqueza incontável! No que precisar de mim, estarei a disposição.
O sertanejo tornou-se um homem rico. Mas manteve sempre a humildade. Em sua fazenda mandou construir uma toca para a raposa, um ninhal para o carcará, na frondosa copa de um umbuzeiro e um túnel para o tatu, que sempre vinham visitar o amigo.
Quanto ao coronel, os acontecimentos daquela noite encheram de medo os seus empregados. Foram deixando seus afazeres e se afastando daquelas terras e daquele homem ruim, que, sozinho, não pôde manter nada do que era seu. E pobre, acabou como mendigo nas feiras das cidades do sertão. Porque homem nenhum pode nada sozinho, enquanto o que possui amigos verdadeiros tem tudo!

sábado, 16 de março de 2024

Você lembra dos bastidores? a invisibilidade dos trabalhadores técnicos administrativos em educação

Adoro o teatro. Assistir artistas 
realizando diante do público a suas performances, sejam atuando, cantando, recitando, enfim, realizando diante de todos a sua arte, seja no improviso ou à custa de muito ensaio, é uma das melhores formas de entretenimento. 
Do erguer ao cair do pano, somos imersos em um outro mundo, onde, por vezes a fantasia se confunde com a realidade. 
O que muitas vezes esquecemos é que nós bastidores há toda uma equipe que se esforça tanto quanto quem está no palco para que tudo saía conforme o planejado. Iluminação, cenários, figurinos, e outras tantas coisas que estão a cargo de diversos trabalhadoras e trabalhadores invisíveis que pertencem ao teatro, tanto quanto quem se apresenta. 
Sem eles não haveria espetáculo. Mas a realização de suas funções de forma excelente contribui para que não sejam vistos. No resultado geral, os aplausos focam quem está diante do público. E em caso de falhas é que os demais são lembrados, em críticas ferinas. 
Comecei falando de teatro para fazer uma analogia com as servidoras e servidores técnicos administrativos em educação. Tanto quanto docentes e estudantes, fazem parte das universidades. Mas acabam invisíveis. 
Um contingente de trabalhadores nas mais diversas funções são os responsáveis pelo funcionamento da universidade, dando suporte às aulas e às atividades de ensino, pesquisa, extensão e cultura. 
Profissionais de TI, contadores, engenheiros, pedagogos, arquitetos, administradores, psicólogos, e muitos outros profissionais compõe a mais numerosa carreira do serviço público federal. E, infelizmente a que tem a pior remuneração. 
O trabalho excelente que realizam garante que nossas universidades, não apenas possa manter seu serviço à sociedade, como garante o direito à educação superior e ainda possibilita a continuidade da universidade pública, gratuita e de qualidade. 
Queremos reconhecimento, valorização e respeito. Queremos que nossas reivindicações sejam ouvidas. E queremos que cada servidor e servidoras técnica administrativa em educação possa se orgulhar de sua contribuição para a Educação Superior. 
Seguiremos defendendo uma universidade mais inclusiva, mais diversas e mais comprometida com os movimentos sociais. Porque a universidade que queremos é a que valoriza a todas e todos aqueles que a constroem! 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Sobre desvalorizar o trabalho alheio

Um dos clássicos da literatura brasileira é o Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nele, do além, o personagem título narra sua vida, a começar, inusitadamente, pela sua morte, para daí, voltar a ordem que se espera: nascimento, infância adolescência, maturidade. 
Escrito por Machado de Assis, o livro destila uma fina ironia, a qual, apenas um morto, sem ter mais que preocupar-se com os julgamentos da sociedade poderia ter. 
Ele apresenta um retrato de nós, brasileiros, que não é tão bom quanto gostaríamos. As enfim, abordo, Machado de Assis e seu Brás Cubas, para adentrar no tema do valor do trabalho. 
Em certa passagem, Brás escapa de um acidente sério, com sua montaria, um jumento, no qual poderia ter morrido. Ele é socorrido por um almocreve. Almocreve é o trabalhador cujo ofício é, justamente, conduzir animais de carga.
O trabalhador o ajudou e depois cuidou do animal para que ele seguisse seu caminho. 
No começo, Brás Cubas, visivelmente abalado pelo acontecimento, cogitou dar-lhe três moedas de ouro como forma de agradecimento. 
Com o seguir da narrativa, vê-se que tal ato começa a ser questionado. 
Afinal, cuidar de jumentos, mulas e outros animais, era o trabalho dele, cismava Cubas. E ainda que o acidente, felizmente, não fora nada demais. 
Rapidamente, cogita dar-lhe apenas duas moedas, depois uma. Depois, olhando para pobreza do trabalhador, acha que uma moeda de ouro apenas, ainda seria muito para alguém, que, pensou Cubas, nunca tiveram uma mas mãos. 
Por fim, enfiou um cruzado de prata nas mãos do homem. Este agradeceu efusivamente. 
Vendo a reação do homem, Brás Cubas sentiu-se um tolo pra ter dado a este tanto dinheiro. Sentindo umas moedinhas de cobre no bolso, convenceu-se de que estas seria a paga adequada. E se foi pensando no quanto era perdulário. 
Esse trecho é algo tão comum. Geralmente, tomamos o trabalho dos demais como sendo algo a ser pouco valorizado. São comuns comentários como, paguei tanto para o profissional fazer só isso. E ninguém pensa no quanto de preparação está envolvida naquele trabalho, na situação de vida do trabalhador, de suas necessidades. Não temos sequer a empatia para nós colocarmos em seu lugar. 
Nesses dias em que, nós servidores técnicos administrativos em educação estamos lutando por um novo PCCTAE, o governo agiu conosco como Brás Cubas, com a diferença de que nem mesmo os cobres sobrando no bolso, ele acha que merecemos. Desvaloriza nossa categoria, deixa-nos sem reajuste e sem uma resposta sobre a reformulação da carreira. 
Somos a maior carreira do executivo. Estamos na base da educação superior. Sem nós, não há universidade. Já passou da hora de mostrar que temos valor.Que a educação não pode acontecer sem nós é uma lição que este governo precisa aprender! 
Sem Reformulação, vamos parar a educação!