quinta-feira, 3 de julho de 2025

Escrevi e não publiquei...

 

Entre Jorge e Francisco

Do meu caderno de anotações, em 23/04/2025


 Estou escrevendo essas linhas, abrindo um tempo entre as leituras e a escrita da tese. Olho para o calendário permanente de madeira, presente de um amigo que deve ler essa crônica e ficar animado em saber que o dito calendário é ferramenta que me permite não perder o correr dos dias. 

Mas como ia dizendo, olhei para o calendário e vi que era vinte e três de abril. Alguma coisa naquela data me levou a dar um google. Pow! Dia de são Jorge. Exatos três dias depois da páscoa de 2025. E do que mais me lembrei? De que não tinha escrito sobre o Papa Francisco, falecido em vinte um de abril. Que antes de escolhido papa e ter escolhido ser Francisco se chamava Jorge.

Lembro que estudava história na UECE, quando Bento XVI, cansado da carga que deve ser calçar as sandálias do pescador, renunciou ao pontificado. O primeiro a fazê-lo na época moderna. Ele havia sido homem de confiança do papa anterior, João Paulo II, que decidiu, mesmo visivelmente debilitado pela doença, manter-se no Trono de São Pedro até o fim. Cada um com suas concepções. O fato é que a longa doença, a exposição midiática (antes de João Paulo II, os papas simplesmente morriam, o polonês foi o primeiro a mostrar-se doente), fizeram Bento entender, que, diferente do seu antecessor, ele serviria melhor à sua Igreja, abrindo espaço para um papa mais jovem, se bater contra os problemas de uma instituição milenar, que vive entre a tradição e o conservadorismo e o desejo de parte de seus fiéis que se abra a novos tempos.

Veio o conclave. E o argentino Jorge, que sairia da sua Buenos Aires, com uma malinha para passar um tempo em Roma e voltar, acabou sendo escolhido bispo de Roma. No dia em que foi anunciado, estava voltando do trabalho, a caminho da aula, quando vi, num barzinho, uma pequena multidão aglomerada, assistindo à transmissão “urbe et orbe”, desde Roma.

Saí extasiado. Um sul-americano era o novo papa. E, diferente do que a imprensa especialista brasileira especulava, era um argentino. Depois fomos sabendo mais do papa novo. Ele era jesuíta. Quando divulgaram que seu nome seria Francisco, pensei, logo, em São Francisco Xavier, um jesuíta do século XVI, evangelizador do Japão. Mas, era a Francisco de Assis que Jorge resolvera tomar seu nome de papa.

Ora, como não ficar com um pé atrás, com um novo papa jesuíta e ainda mais, vejam só, argentino. Mas, Francisco, acabou sendo uma grata surpresa. Ele não foi um revolucionário. Não derruiu um único dogma. Mas abriu uma janela que permitiu que uma brisa suave arejasse com frescor a Igreja. Uso a metáfora da brisa, lembrando das minhas próprias leituras bíblicas. Lá em Reis, quando Elias foge para não ser morto por um rei de Israel. Levado ao deserto, ou a um monte, não lembro agora, ele tem um encontro com Deus. O escritor bíblico diz que correram rios de fogo, trovões, ventanias, mas Deus não estava no meio disso. De repente começou a soprar uma brisa soava, um cicio quase inaudível. E ali Deus falou com Elias. Foi essa brisa que Francisco permitiu que soprasse.

Acolheu os oprimidos, criticou o capitalismo, lutou pelos refugiados e migrantes. Condenou o preconceito e os genocídios, fazendo com que seu pontificado ficasse marcado no mundo inteiro. Deus e ele sabem a que custo. Fiquei um tempo sem acompanhar a trajetória dele. Ouvia a manada de bolsonaristas, fascistas e toda a fauna de direita chama-lo de comunista, espumando de ódio pelo motivo de quem um líder religioso não agisse como um vendilhão do templo, ou como o levita e o fariseu, que seguiram seu caminho, sem ajudar o necessitado. Quando eu revi Francisco, pela televisão, vi um homem desgastado, doente, mas firme em suas resoluções.

No domingo de páscoa, fez questão de condenar o genocídio palestino e de andar entre os fieis na praça de São Pedro. E no dia seguinte, a notícia de que o papa Francisco, falecera. Me marcou, eu que estou longe do meu Ceará, o fato que, desde sua eleição, nunca voltara a Argentina.

Agora, o mundo espera a eleição de um novo papa. Mas para a maioria, o sentimento que se intuiu é que presenciamos todos o pontificado de um dos maiores papas. Não pelo que realizou, mas por ter estado sempre ao lado dos oprimidos, dos pobres, dos perdidos do mundo. Tal como Jesus, de quem ele foi vigário.

E sua ultima lição: a humildade de um caixão simples e um enterro fora da basílica de São Pedro, ele mostrou seguir os passos de Cristo, que mesmo ressuscitado, glorificado, ao aparecer a Paulo, se apresentou a ele simplesmente como Jesus de Nazaré, o camponês pobre da Galileia, que percorreu a Palestina com pobre, pecadores e excluídos, pregando um mundo onde todos tivessem uma vida abundante.

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