quarta-feira, 7 de junho de 2023

Uma parábola turca

 Lá pelo século XIX, havia nas colinas da Anatólia, na Turquia, um povoado de criadores de ovelhas. A única riqueza que possuíam era o rebanho de ovelhas, o qual era tosquiado uma vez ao ano. A lã daí resultante era repartida entre as famílias para a confecção de roupas e o excedente levado para vender. A renda obtida era usada para comprar tudo o que o povoado necessitava e não conseguia produzir e era repartida coletivamente.

Um dia o velho edil, uma espécie de líder do povoado resolveu que queria andar pelo mundo e colocou em seu lugar dois irmãos, Nuredin e Ibrahim. Era ambos inexperientes, mas pareciam a todos pessoas excelentes e ficaram todos felizes com a escolha.

Nuredin tomou a seu encargo o cuidado com a pequena renda da lã, que deveria ser administrada para durar durante um ano, de uma tosquia a outra. Quando entrou na tesouraria descobriu que as melhorias realizadas pelo antecessor haviam consumido toda a renda. Não havia o que fazer. Tudo fora utilizado para beneficiar a comunidade. Mas agora era preciso fazer pequenos sacrifícios para garantir a sobrevivência do povoado. Organizou um racionamento, imaginando a necessidade de prolongar os recursos armazenados.

Isso era realmente muito impopular. Ibrahim se juntou aos que diziam que nunca precisaram fazer isso e agora Nuredin inventava de querer mudar as coisas. Argumentavam que era impossível sobreviver sem manter o mesmo nível de consumo. Mas, Nuredin foi firme. Ele sabia o que estava fazendo. Tentou explicar, mas não foi ouvido.

“Ora”, dizia Ibrahim, “mantemos tudo como está e se vier a faltar antes da tosquia, vendemos algumas ovelhas”.

Nesse ínterim, o velho Edil voltou. Queria ocupar seu cargo novamente. Mas como? Vendo o descontentamento, resolveu apoiar os contrários a Nuredin. Ele, dizia a todos, saberia como fazer e que o que Nuredin estava fazendo era importante, mas desnecessário, coisa da inexperiência do jovem.

E esse argumento convenceu a todos. Sem suportar mais tantas adversidades e perseguições do seu próprio povo, Nuredin renunciou e partiu. Foi-se embora sem olhar para trás. A primeira coisa que fizeram foi uma grande comemoração. Mataram algumas ovelhas e fizeram um festival para celebrar a união da juventude e da experiência.

Algum tempo depois, os produtos armazenados acabaram. Para comprar mais tiverem que vender mais algumas ovelhas. E assim fizeram alegremente. A venda das ovelhas rendeu até mais do que a lã.

No entanto, quando da tosquia, o número de ovelhas era tão diminuto, que mal deu para dividir segundo a necessidade de roupas de cada um. Quanto mais para ter um excedente e vender. Para conseguir comprar os produtos que não produziam na comunidade venderam mais ovelhas. No ano seguinte, não houve tosquia. Não havia mais ovelhas. Não havia sequer um povoado. Essa amigos é uma história que se passou a mais de duzentos anos. Quem passeia por aquelas colinas ainda pode contemplar as ruínas de um povoado outrora próspero.

Por vezes, quem te dá um NÃO faz isso porque deseja o melhor para você! 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Uma fábula

Não lembro onde ou de quem ouvi essa história. Mas vou compartilhá-la aqui, porque ela vem a calhar com o momento. A Savana é habitada por diversas espécies de animais. Alguns enormes, outros minúsculo. Dentre esses havia um leão. Uma fera para não se colocar


defeitos.

 Certo dia, cansado, deitou-se sob uma sombra para dormir. No entanto não conseguia. Uma mosca zumbia e zumbia sobrevoando sobre sua cabeça. Furioso saltou sobre ela, que pequenina escapou, mas continuou fazendo piruetas no ar diante do animal que tentava pegá-la, mordê-la, acabar com ela. Divertida, por estar incomodando incólume um leão feroz, continuou por horas até que, cansada, deixou o leão e se foi para outro lugar. 

Cheia de si, a mosca foi procurar outras moscas para contar sua peripécia. Ia tão feliz, alegre, que não atentou para a teia de aranha em seu caminho. A mosca destemida que fustigou um leão a tarde inteira, tornou-se o jantar de uma aranha despretensiosa que adorou ter uma vítima cansada, sem forças para se debater tentando fugir de sua teia. Reflitamos sobre quais são os verdadeiros desafios que devemos enfrentar. Não adianta atacar quem não é seu inimigo, e acabar sendo tragado por aquilo que realmente te ameaça

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Passeio matinal

 Hoje, meu pet me acordou às cinco e meia. Depois de alguma insistência me levou para passear. Seis da manhã. Ninguém na rua. Um ou outro automóvel passando veloz. E eu seguindo um cãozinho pela manhã a fora. 



Esse ritual repete-se todos os dias. Com sol, com chuva. No calor ou no frio. O carinha acorda e nada o faz ficar em casa. Então andamos por aí. Vemos o bairro acordar. As pessoas saindo tímidas de casa, olhando para um lado e outro da rua, para, resignadas, partirem para seus destinos. Alguns saem correndo. Atrasadas talvez. A todos o Ben, meu personal dog trainer, observa atentamente, como a tentar descobrir pra onde vão. 

Passamos pelas padarias, sentindo o cheirinho da próxima fornada de pães, vendo clientes e atendentes se cumprimentando, na mesma rotina, dia após dia. Penso no eterno retorno de Nieztche. Esse sou eu, quando não ponho poesia em tudo, vou colocando pitadas de filosofia. Um puxão do meu amigão me traz à realidade. Atravessamos a avenida para que ele possa “marcar o território”. 

E assim seguimos, de uma amenidade a outra. Pra nós, seres humanos, qual a importância disso? Quase nada. Evitar sujeira pela casa, consequência número um de não ter o passeio matinal. Mas, para o Ben, esse passeio matinal é essencial. Não fazer é quebrar os fluxos diários e isso retira sua segurança. 

Então seguimos. Ele à frente, eu atrás da guia. Às vezes uma ou outra confusão, vem dar cores de comédia a esse espetáculo trivial. Como da vez que tive que pôr o Ben no colo para fugir de um cachorro enorme que o meu pequeno maltipoo resolveu provocar.

Concluímos nosso passeio e voltamos para casa. Ele pula no sofá e quase que instantaneamente volta a dormir. Quanto a mim, chegou a minha vez de executar minha rotina, os rituais diários que a sociedade moderna exige de nós, para nós considerar saudáveis, produtivos e participantes. Mesmo que nenhuma dessas três coisas seja algo além de uma grande farsa…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Das coisas que cá eu vi e que nunca ia imaginar

 Cearense de muito vagar, pude andar pelos mais diversos lugares. Do meu Ceará mesmo, andei por muito canto. Estive nas cidades mais secas dos sertões semiáridos. No Brasil enfrentei o calor do Centro-Oeste, mas confesso que nada me preparou para o calorão úmido de Pelotas. Brincando, no verão, tomava 40° e tantos graus com sensação de 50°... Gente, por favor! Falamos que Sobra ou Juazeiro do Norte é quente, mas sensação de 50°, nunca experimentei no Ceará. 


E ficamos ainda mais chocados, porque lá no Nordeste a gente imagina essa terra aqui, como sendo de clima ameno, com temperaturas baixas no inverno. Mas a amplitude térmica é de deixar qualquer um maluco. E isso aí não é tudo. para além da sensação de calor ainda tinha aquela sensação de Game of Thrones: sempre que conversávamos com alguém sobre o calorão, já vinham dizendo; quando o inverno chegar, aí você vai ver... Semore isso! The winter is coming! 

E mais uma coisa: a gente o Nordeste imagina que aqui é tudo muito ligado aos imigrantes, alemães, italianos, e tal, tal, tal. Mas você chega e entra em contato com uma cultura muito forte e totalmente invisibilizada para fora do estado que é a cultura negra do Rio Grande do Sul! São manifestações culturais poderosas e que tomam conta das cidades. Os cultos afro, aqui ganham as ruas, as oferendas, diferente do que vemos no Ceará, tomam conta dos espaços urbanos com suas cores e seu clima de fé. Para quem conviveu com parte da família sendo adepta de cultos afro-brasileiros, mas escondidos, devido ao preconceito no Ceará, aqui foi uma grata surpresa ver como essas religiões tem seus espaço e como seus adeptos se orgulham delas. 

Essas são duas coisas marcantes que a gente nota e que surpreende quando chega aqui. Tantas diferenças, tantas semelhanças. E ainda estou aprendendo, Sempre. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Um ano de Rio Grande do Sul: viemos para cá na cara e na coragem e num celtinha 2012

 Ano passado, dia 03 de janeiro, peguei o Ben, meu filho pet, chamei a esposa e um cunhado mala, nos enfiamos dentro do celtinha 2012 da minha mulher e fizemos mais de 4 mil quilômetros, saindo da Terra da Luz, o meu Ceará e indo para Pelotas, princesa do Sul. A aventura automobilística foi parte da aventura maior que foi vir fazer o meu doutorado. 

Foi uma longa viagem de 7 dias que resolvi, agora, um ano depois vir compartilhar aqui. Fiz poucas imagens e ainda menos vídeos, então terão de se contentar com a minha descrição. Espero fazer jus a miríade de sentimentos que me percorreram durante toda viagem. 

Tentarei deixar claro o que passamos, as situações delicadas e as engraçadas e dar um pouco das impressões que tivemos durante a viagem. Começamos a nos preparar par ela ainda em julho, quando, já aprovado no Doutorado, resolvi que iria ao Rio Grande do Sul, quando as aulas presenciais retornassem. 

Tendo isso claro, tinha duas opções: ir de carro ou de avião. Colocar na planilha os custos, listar prós e contras de cada opção (lá ia de novo falar em custo de oportunidades, vejam só). Para no fim dar o veredito final: vamos de carro para levar o Ben. Esse carinha aqui em baixo:  

Revisão no carro, balanceamento, um pente fino no automóvel, para evitar dificuldades maiores, e tudo isso numa ansiedade enorme, que vocês só podem imaginar. Por fim, ás 05 da manhã do dia 03 de janeiro de 2022, pegamos a estrada.

E logo estarei aqui para contar para vocês como foi cada trechinho da viagem! 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

À guisa de explicações

 Passei um tempinho longe daqui.... se puderem me desculpem, é claro, que não espero audiência alguma, afinal, após um ano de silêncio quem ainda viria a um blog, onde só se publicam textos, escritos sem a mínima pretensão de agradar a quem quer que seja a não ser o seu autor? 

Mas, bem, voltemos a pedir desculpas ao meu leitor hipotético, que depois de tanto tempo, vota a esse lugar e encontra, vejam só, essas linhas. 2022 foi um ano totalmente fora da curva. ora, vejam só, eu costumava escreer desde o Cariri ou de Fortaleza e aqui estou eu a uns três mil quilômetros de distância mais ou menos, teclando desde Pelotas no Rio Grande do Sul. Viagem enorme, realizada bem no comecinho do ano e da qual terei de falar sobre mais adiante... Eu, a esposa, o cunhado e meu Pet, de Celta, atravessando o Brasil da terra do sol aos pampas gaúchos. Irei relatar aqui, podem esperar. 

Depois vieram as aulas do doutorado, as atividades todas envolvidas e a tarefa prazerosa, mas bem trabalhosa, reconheço de ir me dando conta do local onde vivo e das pessoas em meio às quais me encontro. Se fosse sociólogo e antropólogo, teria muito material de trabalho... Mas como sou o que sou, contento-me em ver, ouvir, papear um pouco e, tenham paciência comigo, depois de um tempo, escrever aqui. 

Então, tenho mais de um ano de histórias e de relatos ara lançar aqui... espero ter tempo para fazê-lo. E se não tiver, meus caros leitores, aguardem. Posso sumir, mas como sempre apareço. 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Alguns pães e poucos peixinhos

  34 E Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas. 35 E, como o dia fosse já muito adiantado, os seus discípulos se aproximaram dele e lhe disseram: O lugar é deserto, e o dia está já muito adiantado; 36 despede-os, para que vão aos campos e aldeias circunvizinhas e comprem pão para si, porque não têm o que comer. 37 Ele, porém, respondendo, lhes disse: Dai-lhes vós de comer. 

Às vezes a gente lê o evangelho e pensa: que raios andam lendo certos pregadores para estimular o individualismo, o desamor, o apego ao lucro e as falácias neoliberais que veem nas mulheres e homens, não a imagem e semelhança de Deus, mas apenas o outro, o concorrente, aquele a quem se deve vencer? 

Como justificar uma igreja que em vez de ter fome e sede de justiça, fecha aos olhos ao povo que sofre, que tem fome e por isso está aí comendo lixo e ossos, enquanto a igreja festeja sentando na mesa dos que são responsáveis por isso? 

Bem disse o Senhor em Malaquias, quem dera houvesse que lhes fechasse as portas. Se o meu desejo por poder é maior do que o desejo de ajudar o próximo, como posso me dizer servo, e ainda mais servo daquele que lavou aos pés dos simples pescadores e pecadores da Galiléia? 

Jesus disse: dá-lhe vós de comer. Não deu ouvidos aos que disseram que mandasse embora o povo para que comprasse o que comer. Este é o Jesus que eu creio. Que me esforço a seguir. O que alimenta ao seu povo. Não o que o deixa perecer em troca da amizade dos poderosos. O que acolhe os pecadores, não o que odeia os que lhe são diferentes. Mas o que sei eu? Peçamos misericórdia e sejamos imitadores de Cristo. Demos de comer ao povo. Amemos a todas e todos.