quarta-feira, 8 de março de 2017

Meninos



A tarde estava terminando. A meninada da rua começava a se concentrar sob o alpendre da mercearia do seu Lucas. Ali os meninos juntavam as moedinhas, contavam e recontavam, faziam cálculos e compravam bombinhas. Desde os inocentes estalos até as estrondosas, que chamavam de rasga lata. Saiam correndo em direção ao campinho e lá começavam as brincadeiras. Essas eram de todos os tipos, brincadeiras de pegar, brincadeiras com bolas, com carrinho e, dependendo da época, com pipas, com pião, com bila.
Naquele dia o ponto alto seria a explosão da bomba maior. Esperavam anoitecer para que pudessem realizar o evento. Caio trouxe uma lata vazia de leite em pó. Pintaram-na com uma tinta encarnada e amarraram uma fita azul ao redor. Nesta, escrita a carvão, os nomes de cada menino da rua. Os nomes não, os apelidos. Raul trouxe um pequeno boneco, que ele, o melhor da rua em trabalhos manuais, havia moldado de barro.
O boneco tinha a cabeça grande, uma barriga enorme e pés finos e largos como os de um pato. Quando ele tirou a pequena figura de barro do saco e o apresentou à molecada, todos riram.
“Ficou a cara mesmo! É escritinho o seu Tobias!” exclamaram alguns. Seu Tobias morava em frente ao campinho. Inimigo número 1 da garotada. Não havia bola que, inadvertidamente alguém lançasse na calçada dele, que não fosse feita em tiras. Bolas de borracha, de couro, qualquer uma, se chegasse às mãos do velho Tobias, acabou-se.
Este comportamento gerou ressentimentos nas crianças. Afinal, nunca haviam quebrado nada, nem por acidentes, nos arredores do campinho. Tirando o barulho, que afinal terminava cedo, porque costumavam brincar só até a hora do jantar, o folguedo dos pequenos ali, não incomodava nada. Mas seu Tobias era ranzinza.
Foi aí que pensaram na vingança. Iriam explodir o seu Tobias. Não o verdadeiro, mas uma cópia. Um dos meninos, certo dia, trouxe para o campinho uma revistinha de contos de terror. Ali, havia uma história sobre uma mulher que machucava um homem por meio de um boneco parecido com o homem. “E se isso funcionasse mesmo?” pensaram. E decidiram. Vamos explodir o seu Tobias.
Agora estavam ali, com o boneco preso a lata com cera de vela e o Nando com a bombinha e a caixa de fósforos na mão, para dar seguimento à execução. O silêncio que se fez foi tão grande que podiam ouvir o bater dos corações. Um dos meninos ergueu a lata e a bomba foi acesa e lançada debaixo da lata. Todos correram. A lata voou alto e caiu em pedaços a poucos metros do local onde estava. Os meninos se colocaram ao seu redor. O boneco, destruído, estava do lado. Um dos meninos pegou a cabeça de barro e a ergueu em triunfo. Todos se voltaram e olharam para a casa do inimigo. Seu Tobias estava sentado, em sua cadeira de balanço ao lado da esposa. Ele nem sabia, mas acabara de sofrer um ataque. Foi a vingança dos meninos contra seu autoritarismo.
Passaram todos em frente a calçada do velho. Sorriam. Estavam de alma lavada. Estavam vingados.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O que um filósofo do século XVI tem a nos dizer!

                 Em tempos de acirramento dos discursos de ódio nas redes sociais é preciso ter lucidez para não ser engolfado pelas ondas furiosas dos contendores. Há gente espumando à esquerda e à direita. É patente a desumanidade nos comentários e as tentativas de denegrir imagens. A discussão de ideias ficou em segundo plano e isso quando existe.
                 É comum que a mesma pessoa, por conta de suas opiniões seja flagelado por todos os lados. Basta que você se desvie um milímetro do pensamento do outro pra ser chamado de inimigo. Assim a mesma pessoa é chamado de comunista pela direita e de fascista pela esquerda. A mesma pessoa parece acender um círio para Deus e outro ao diabo.
                 Esses dias estou lendo um livrinho muito bacana sobre Giordano Bruno. e foi uma citação do filósfo, morto na fogueira pela inquisição que me trouxe a esse tema. A citação é a seguinte:
                   "Aquele que deseja filosofar deve, antes de tudo, duvidar de todas as coisas. Não deve adotar posição num debate antes de ouvir as várias opiniões e considerar e comparar as razões pró e contra. Jamais deve julgar ou adotar posição com base no que ouviu, na opinião da maioria, na idade, nos méritos ou no prestígio do orador em questão, mas deve proceder segundo a persuasão de uma doutrina orgânica que seja fiel às coisas reais e a uma verdade que possa ser entendida à luz da razão".
                   Como podemos ver o pensamento de Bruno, lá no século XVI, se ajusta como uma luva em nossos dias. É preciso ouvir e considerar todas as opiniões, mesmo as que vão de encontro ao nosso modo de pensar. Isso é importante até para que possamos criar e melhorar nossos argumentos.
                    E devemos lembrar, ainda, que discussões nas redes sociais não mudam nada. O que muda é a luta cotidiana, contra esse sistema que dia a dia nos desumaniza e nos deseja ver como simples autômatos, sem valor algum. Saiamos, pois da frente do computador e vamos tomas nas mãos nosso futuro! Porque um outro mundo ainda é possível!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Um diálogo



“Ela é linda!”
“Mas não é pro teu bico!”
“Por que não?”
“Por isso, por ser linda! Uma mulher assim nunca, nunca iria se encantar por você.”
“Ah, me deixa sonhar...”
“De jeito nenhum, todas as vezes que eu me omito você enfia os pés pelas mãos e nós dois pagamos o pato!”
“Você já pensou em, um dia, só um diazinho, me ajudar um pouco? O resultado poderia ser diferente.”
“Não vale o risco. Se comigo me opondo, você já faz o que faz... Anda esquece, vamos seguir adiante.”
Se todo diálogo entre o coração e o cérebro fosse assim, quanta dor não teria sido evitada? Mas ao mesmo tempo, quantas obras maravilhosas nunca teriam sido realizadas, quantos livros não deixariam de ser escritos e quão insípida seria a nossa vida. Porque até quebrar a cara por amor é algo doce... Arrisque-se!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre ombros de gigantes!

                      Aposto que boa parte dos que chegam a essa página já ouviram falar de Shakespeare, Virgílio, Homero, Cervantes, Dante, Omar khayyam, Sun Tzu e muitos outros autores e suas obras que de uma forma ou de outra marcaram o mundo em que vivemos. Escritos com séculos e mesmo milênios de idade ainda hoje são lidos e relidos, inspiram novas obras e novas formas de expressão. Talvez você nunca tenha lido uma obra de Shakespeare, por exemplo, mas já viu as dezenas de adaptações dessas obras para o cinema. Nunca nem pôs os olhos na Ilíada, de Homero, mas emocionou-se também com a súplica de Príamo a Aquiles pelo corpo do filho Heitor, que você no épico Troia, enfim, é muito difícil que durante nossa vida não tenhamos algum tipo de contato com estes autores, que mesmo tendo partido a tanto tempo deixaram a sua marca em nós.
                     A cada dia a modernidade nos cerca de conforto e segurança. Ela nos permite uma liberdade desconhecida aos homens até pouco tempo atrás. E nos permite ter um acesso até pouco tempo atrás impensável a essas obras grandiosas que formam o escopo do que a Humanidade foi, é e se tornará. No entanto, poucos têm se aproveitado disso. Quantos leem sinopses, adaptações ou mesmo apenas assistem a versão cinematográfica? Mesmo nas universidades nos acostumamos a ler excertos das obras, nunca completa, num modelo de ensino especialista que nos limita ao invés de nos fazer romper as cadeias!
                     Leiam, camaradas, não se satisfaçam com o pouco que nos oferecem de cultura. Busquem na internet e você obterá as obras em uma mídia qualquer! Busquem entender! Sois cristãos? Leiam Agostinho, Aquino! Bebam na fonte dos que moldaram a sua religião! Mas não deixeis de ler Nieztche e outros que lhe fazem contraponto! Inteirem-se, busquem, procurem entender as discordâncias e as várias perspectivas entre cada autor, que escreveram influenciados por seu tempo, por sua vivência. Reflitam, que importa que suas convicções sejam abaladas? O que importa é que fazendo isso, cada um de nós pode ter certeza de que está evoluindo e se tornando uma pessoa melhor. Contrariar as verdades estabelecidas faz parte dessa história de ser humano!
Newton dizia que só pode ir tão longe em suas descobertas por estar apoiado em ombros de gigantes. Hoje o próprio Newton é um gigante, a cujos ombros podemos nos apoiar! Façamos isso então! E vocês verão que isso não apenas vai enriquecê-los de conhecimento, mas lhe proporcionará muitos sentimentos. Alegrias simples, como rir-se da ingenuidade de Sancho Pança, em Don Quixote, ou admirar-se com a sabedoria dos personagens das Mil e Uma Noites, encantar-se com os poemas do Rubayat ou comover-se com a trágica história de Otelo.
                    Está tudo aí, a um clique de distância. Nunca antes estas obras estiveram tão disponíveis a tantas pessoas. Aproveitemos. Conheçamos, subamos nós também nestes ombros gigantes e contemplemos o mundo com novos olhos!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Romaria das Candeias

                       Até onde minha vista alcançava era o mundaréu de povo. Muitos com velas nas mãos, outros com lamparinas, outros mais jovens com pequenas luminárias a pilha, mas todos sem exceção com alguma luz nas mãos. A Romaria de Nossa Senhora das Candeias é a primeira romaria do ano em Juazeiro do Norte. A cidade recebe vistantes de todo o Nordeste, muitos para agradecer bençãos conquistadas, outros para fazerem seus pedidos nesta terra abençoada pelo homem que o povo fez Santo, apesar da oposição da Igreja.
                      Minha curiosidade me levou a ver a procissão. A fé, principalmente aquela revelada pelas práticas de religiosidade popular sempre me atraíram. Pensei em ver a multidão passar de uma esquina qualquer e depois ir-me embora. Quando dei por mim estava no meio da multidão. Caminhava junto com aquela gente. Observava os velhos que andavam resignados, os olhos postos no céu, como que a esperar que estes se abrissem para recebê-los. Via os jovens passarem sorrindo, olhares ávidos uns aos outros. Vi famílias, avós, pais, filhos, netos, seguindo juntos pela rua iluminada pela chama das candeias. Vi a fé simples do romeiro que seguia descalço, e pude notar a alegria dos que conduziam a santa.
                      Nunca fui católico. Passei anos da minha vida como evangélico. Mas uma coisa que aprendi é que toda a Fé, no que quer que seja, em quem que seja, merece respeito. Porque mesmo os que não acreditam em Deus ou em um ser divino, tem fé em alguma coisa, acredita, põe sua confiança, seja na humanidade, seja na sua ideologia ou qualquer outra coisa, porque viver a Fé é algo inerente a todos nós seres humanos.
                      O tapete de luz nas noites de 02 de fevereiro em Juazeiro do Norte é um desses momentos em que percebemos o quanto somos capazes de criar coisas tão simples e, ao mesmo tempo, tão belas. E cada participante saiu dali, creio eu, certo de que sua prece foi ouvida e esperançoso nesta jornada que todos compartilhamos, a qual chamamos de vida.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

                 A Fé é algo realmente fantástico. De acordo com os evangelhos ela pode mover montanhas, isso ainda não houve quem provasse, mas é certo que ela move multidões, e muito, muito dinheiro, isso é facilmente percebido ao olharmos para as as diversas religiões que pululam hoje pela face da terra.
                 Se no início de nossa era Jesus e seus 12 apóstolos, conseguiram apenas uma audiência ínfima, enquanto realizavam suas pregações e curas itinerantes pela Galileia e, no momento em que obteve seu maior público, uma crucificação, hoje, rádios, tvs, gravadoras e muitas outras mídias e canais transmitem 24 horas por dia uma mensagem que se diz cristã, mas cujo conteúdo é bem diferente do que Jesus pregava em sua época.
                 O galileu pregava o desapego aos bens materiais, este em seu programa diz que você tem que tomar posse.  Jesus dizia que não havia necessidade de longas orações porque, Deus já sabia do que precisávamos antes de formularmos o pedido, este outro na TV diz que você tem que ser específico no seu pedido, se quiser ser atendido... e por aí vai.
                 E ainda tem o esporte preferido dos nossos religiosos atuais: falar da fé alheia. Não basta adorar a Deus da forma como sua igreja o faz, é preciso atacar a forma utilizada pelas outras religiões e igrejas, numa busca incoerente da melhor maneira de chegar a Deus. Esquecem que cada ser humano te em si uma centelha do divino que os guia e orienta e que não é preciso chegar-se até Deus, ele está sempre conosco.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Consumidor ou cidadão?

                Vivemos dias verdadeiramente confusos. Confusos na medida em que, cada vez mais, estamos deixando de ser cidadãos de um Estado Democrático de Direito para nos tornarmos consumidores. É algo assustador perceber isto. É assustador ter que recorrer a um plano de saúde porque você não consegue vagas na rede de saúde pública. Assustador porque, mesmo que você esteja com seu plano rigorosamente em dia, você pode ter seu acesso a saúde negado pela administradora do plano. Isso quando o plano já não é destituído de diversos procedimentos, porque foi pensado para a população de baixa renda, consumidores de segunda classe que merecem atenção até o momento em que assinam a adesão...
               É assustador ver que nossas crianças estão nas escolas, mas que em poucas delas existe realmente esforço e estímulo para que essas crianças aprendam. E você se vê obrigado, caso queira que seu filho tenha resultados positivos na vida escolar, a matriculá-lo nas empresas de educação, disfarçadas de escolas, que imprimem nele um espírito individualista e competitivo, que o acompanhará em toda a vida escolar. É assustador o número desses jovens que tiveram uma educação de ponta, nessas empresas educacionais e que são desumanos para com os demais.
               Tudo porque ideólogos decidiram que direitos tradicionalmente ofertados pelo Estado para sua população não são direitos. São privilégios. E que devem ser ofertados como serviços, pela iniciativa privada, tecendo loas ao mercado e antevendo um futuro brilhante para esse admirável mundo novo.
               Mas existe resistência, Aqui e ali vozes dissonantes são ouvidas. Isoladas ainda. Mas a maré está enchendo. Aos poucos trabalhadores dos campos e das cidades, sem terras e sem tetos, desempregados, e outros atores sociais, quase sempre esquecido nas planilhas dos grandes ideólogos começam a juntar-se e dizer não! Não para a perda dos direitos, não para a desumanização da vida, não às dívidas impagáveis dos cartões de crédito, cheques especiais, consignados e congêneres!
           Essas vozes não querem só o retorno do antigo. Querem algo mais. Querem o novo! E é esse novo que os responsáveis por todas essas mudanças (mudanças que levam para trás, que buscam nos regredir ao passado) querem impedir que nasça! Mas tão certo como o sol nasce mesmo depois da noite mais escura, um dia poderemos dar um basta a toda essa tentativa torpe de nos reduzir a números frios da planilha do burocrata!